Lula afirma que não sabia sobre falta de reajuste no Bolsa Família e defende crescimento para conter dívida pública
Presidente comentou o aumento concedido ao programa social antes da eleição, descartou contingenciamentos na área social, rebateu posições do Banco Central e abordou a expansão do crédito e obras infraestruturais.
O presidente Lula durante entrevista ao Jornal Nacional, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro (RJ). / Foto: Ricardo Stuckert. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que desconhecia a ausência de atualização na folha do Bolsa Família durante três anos. A correção do piso mensal de R$ 600 para R$ 691 foi oficializada 17 dias antes do primeiro turno das eleições, garantindo uma repactuação de 15,04% pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Ao comentar a medida em entrevista à jornalista Renata Lo Prete, no Jornal Nacional, da TV Globo, o chefe do Executivo criticou a falta de reajustes prévios no benefício social.
Lula afirmou que a decisão de reajustar o benefício foi tomada assim que a situação foi identificada em sua gestão. "Eu não sabia porque é inexplicável. É inexplicável que no governo do Lula alguém pense em não reajustar a inflação no salário das pessoas. É impensável, mas aconteceu. Aconteceu e eu tomei a decisão", declarou o presidente.
A alteração financeira no programa exige uma adequação orçamentária de R$ 5,8 bilhões para o exercício corrente e cerca de R$ 22 bilhões no ano seguinte, segundo dados do Ministério do Planejamento e Orçamento. O governo precisou modificar o projeto de lei orçamentária enviado ao Congresso Nacional para contemplar o acréscimo. A equipe econômica mantém a previsão de superavit primário de R$ 18,6 bilhões, sustentada em receitas projetadas de R$ 3,46 trilhões contra despesas de R$ 2,83 trilhões.
Lula atribuiu as dificuldades iniciais de sua gestão ao cenário herdado do governo anterior e disse ter dedicado dois anos para reorganizar as contas públicas. "O Orçamento não tinha deixado dinheiro para o Bolsa Família, para a educação, para a saúde. Nós tivemos que construir", afirmou durante a sabatina.
A condução da política fiscal e o crescimento de 10 pontos percentuais na dívida pública também foram alvos de questionamentos. Confrontado sobre análises do Banco Central que apontam a necessidade de contenção de despesas para reduzir juros, o presidente rejeitou a aplicação de arrocho fiscal sobre camadas vulneráveis.
O chefe do Palácio do Planalto defendeu a expansão da atividade produtiva como mecanismo central para equilibrar as contas da União. "O jeito de você resolver o problema fiscal é fazer a economia ficar crescendo", defendeu Lula. Ele complementou que os ajustes tradicionais penalizam a população de menor renda: "Toda vez que alguém quer resolver o problema fiscal, o pobre paga. Toda vez o pobre, e eu não quero que o pobre pague. Eu tô propondo não gastar, não cortar dinheiro do pobre".
A estratégia econômica apresentada pelo governo prioriza o fortalecimento do salário mínimo, o estímulo ao crédito e o apoio aos microempreendedores individuais. O presidente argumentou que o endividamento público se justifica quando direcionado a obras estruturantes, destacando investimentos planejados em ferrovias, hidrelétricas e portos.
O debate econômico desdobrou-se na disputa eleitoral do segundo turno, no qual pesquisas apontam empate técnico entre os candidatos. Lula questionou as propostas da oposição que preveem redução de R$ 250 bilhões nas despesas da União. "É isso que eles vão cortar, porque toda vez que alguém da elite fala que vai cortar, ele corta do povo, corta do sangue do povo e não corta dos ricos. Nós fizemos ao contrário e por isso nós vamos manter e aprimorar todas as nossas políticas sociais", apontou o petista.
Em contrapartida, o senador Flávio Bolsonaro assegurou a preservação dos repasses e do ganho real ao piso salarial. "Não vai ter fim de Bolsa Família, foi o Bolsonaro que triplicou o valor do Bolsa Família. Como é que alguém acredita que nós acabaríamos com isso? É mentira. 'Ah, o Flávio vai acabar com o reajuste para o salário mínimo'. Não vou acabar, eu vou manter", rebateu o adversário durante agenda pública.


