Santiago Peña renuncia à presidência do Paraguai em meio à crise bancária
Decisão ocorreu após perda de apoio do Partido Colorado e avanço de pedido de impeachment na Câmara dos Deputados.
Foto: @SantiPenap / Reprodução X O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira (5). A saída ocorreu em meio a uma crise política e financeira provocada pela liquidação do Ueno Bank pelo Banco Central do Paraguai (BCP). Com o desligamento de Peña, o vice-presidente Pedro Alliana, integrante do Partido Colorado, deve assumir o comando do governo para concluir o mandato, previsto até agosto de 2028.
O anúncio foi feito em pronunciamento divulgado nas redes sociais. Ao deixar a chefia do Poder Executivo após três anos e dois meses de gestão, o político justificou a decisão como uma medida para preservar a estabilidade democrática do país. "Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à presidência da República. O faço pensando na estabilidade de nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas", declarou.
Na mesma mensagem, o ex-mandatário pediu desculpas à população afetada pelo congelamento das contas bancárias. Peña afirmou que a prioridade no momento é garantir a tranquilidade dos correntistas que depositaram economias no sistema financeiro. "Nunca foi minha intenção falhar com a confiança que depositaram em mim. Em cada dia, assumi esta responsabilidade com a vontade de trabalhar pelo Paraguai", disse.
A turbulência no setor bancário começou na terça-feira (3), quando o BCP decretou a intervenção na instituição financeira digital devido a problemas de solvência. O banco possuía 2,9 milhões de clientes, o equivalente a cerca de 60% da população adulta paraguaia.
O desgaste do ex-presidente Santiago Peña decorre de sua ligação direta com a instituição financeira. Peña integrou o quadro de acionistas do Grupo Vázquez, empresa controladora do Ueno Bank, até março de 2025. Além disso, o mandatário nomeou para a presidência do BCP o economista Carlos Carvallo, que ocupou cargo de dirigente no próprio banco digital até o ano de 2023.
A crise se aprofundou com o questionamento sobre os investimentos efetuados pelo Instituto de Seguridade Social (PIS). A autarquia estatal direcionou recursos públicos para a instituição privada, que passou a gerenciar o pagamento de pensões de milhares de aposentados. Ao todo, o banco concentrava cerca de 30% dos depósitos de fundos governamentais, somando aproximadamente 850 milhões de dólares.
A situação motivou duras críticas da oposição na Câmara. A deputada Johanna Ortega, representante do Partido País Solidário (PPS), denunciou o repasse de verbas previdenciárias para uma entidade vinculada ao chefe do Poder Executivo. A parlamentar acusou o governo de utilizar a estrutura pública para beneficiar setores privados.
"Temos alertado sobre conflitos de interesses, sobre a utilização de instituições públicas para favorecer negócios privados de uns poucos, e sobre o crime de gestão em proveito próprio — prática na qual este Presidente da República tem incorrido sistematicamente", afirmou a parlamentar.
O processo de impeachment contra o presidente foi apresentado na quarta-feira (4) por 35 deputados da oposição. O cenário se consolidou na quinta-feira (5), quando o ex-presidente paraguaio e atual presidente do Partido Colorado, Horacio Cartes, retirou o sustentáculo político do governo. Cartes justificou a decisão da legenda afirmando que o partido não estaria ao lado "do latrocínio de fundos públicos, privados e dos aposentados".
Diante do colapso, o Ministério Público do Paraguai solicitou a prisão de oito pessoas investigadas por irregularidades, incluindo o presidente do Ueno Bank, Juan Manuel Gustale. A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) alertou para o risco de paralisação no setor comercial, enquanto correntistas realizam protestos de rua exigindo a devolução dos valores.


