Mendonça diz que foi alvo de "monitoramento sistemático" da Polícia Federal
Segundo ministro do STF, relatórios secretos da corporação miraram sua atuação e a do advogado-geral da União Jorge Messias
Ministro André Mendonça na sessão plenária do STF. Foto: Fellipe Sampaio O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que foi alvo, de forma ilegal, de um "monitoramento sistemático" por parte da Polícia Federal por mais de 30 dias. A declaração consta na decisão em que o magistrado determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa.
Segundo o ministro, pelo menos seis relatórios de inteligência sobre sua atuação foram produzidos de forma oculta entre os dias 3 e 31 de agosto de 2026. Mendonça escreveu em seu despacho que o monitoramento ilícito de um integrante da Suprema Corte revela a gravidade da situação e classificou a conduta como "arapongagem institucional".
Mendonça asseverou textualmente na decisão: "Ou seja, ao menos há mais de 30 dias este relator tem sido monitorado pela Polícia Federal. Trata-se de monitoramento ilícito de Ministro da Suprema Corte do país, o que por si só revela a gravidade da situação".
O ministro também declarou que o colega de Corte, Alexandre de Moraes, teve conhecimento prévio da existência dos relatórios de inteligência. De acordo com Mendonça, Moraes foi informado sobre o material antes de determinar que os arquivos fossem formalmente encaminhados ao inquérito das fake news.
Na decisão, Mendonça criticou duramente as peças que embasaram as acusações contra sua atuação nas operações Sem Desconto e Compliance Zero. Ele rotulou os documentos policiais como um verdadeiro "nada jurídico", apontando que são apócrifos, sem timbre e sem identificação de autoria.
Conforme os argumentos do magistrado, o monitoramento e a coleta dirigida de dados também visaram o advogado-geral da União, Jorge Messias. Um dos relatórios analisou a proximidade entre os dois, destacando que Mendonça e Messias possuem uma "matriz religiosa comum" e receberam apoios de igrejas evangélicas.
Mendonça sustentou que a atividade de inteligência da PF não tem competência para exercer controle disciplinar sobre magistrados. Ele registrou ser "inimaginável conceber que (...) podem estar sendo produzidos 'relatórios no âmbito da Diretoria de Inteligência Policial da PF com considerações das mais variadas ordens sobre o teor de decisões judiciais proferidas por magistrados".
A decisão aponta ainda que os relatórios da corporação expuseram informações sob sigilo de investigações que envolviam os políticos Antonio Rueda e ACM Neto. Para o ministro, o vazamento indevido permitiu que potenciais alvos soubessem previamente de medidas judiciais pendentes, comprometendo diligências futuras.
Ao determinar o afastamento preventivo da cúpula da PF, Mendonça justificou que há "robustos indícios" de omissão ou participação dos diretores. Ele argumentou que a permanência de ambos nos cargos poderia interferir no andamento das investigações.
A Corregedoria da PF foi ordenada a abrir procedimentos de natureza penal e administrativa para identificar os responsáveis pela elaboração do material. A decisão de Mendonça será submetida ao referendo da Segunda Turma do STF em sessão extraordinária virtual nesta terça-feira (8).


