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,18/09/2026

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Daniel Vorcaro procurou Gilmar Mendes por apoio em pauta bilionária, mas foi contrariado no STF

Ex-banqueiro reuniu-se com ministro em busca de posicionamento favorável, mas magistrado votou contra tese do empresário nos julgamentos do setor sucroalcooleiro.


Daniel Vorcaro procurou Gilmar Mendes por apoio em pauta bilionária, mas foi contrariado no STF O ministro Gilmar Mendes. Foto: Nelson Jr./SCO/STF

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, votou de forma contrária aos interesses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro em julgamentos de ações bilionárias na Corte. A posição do magistrado ocorreu mesmo após uma reunião presencial entre ambos no gabinete do tribunal.

As informações sobre o encontro foram reveladas pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo. A audiência entre o ministro e o ex-dono do Banco Master ocorreu no dia 11 de abril de 2024, na sede do STF, em Brasília.

Na ocasião, Vorcaro buscava apoio para teses jurídicas favoráveis a usinas do setor sucroalcooleiro. A carteira da instituição financeira mantinha bilhões de reais em créditos de investimentos sob a forma de precatórios ligados a essas empresas.

Segundo estimativas da Advocacia-Geral da União, as causas cobradas pelas usinas contra a União podem somar R$ 145 bilhões. Caso o STF não validasse as indenizações, os títulos do Banco Master perderiam valor no mercado.

A aproximação entre Vorcaro e o ministro foi intermediada por Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, o Chiquinho Feitosa, ex-cunhado de Gilmar Mendes. O ex-banqueiro mantinha um contrato de R$ 500 mil mensais com o empresário para atuações de lobby em Brasília.

Em trocas de mensagens, Chiquinho orientou o ex-banqueiro a buscar contato direto com o magistrado. "Você tem que começar uma relação direta com ele! É importante para o futuro!", afirmou o empresário.

O agendamento do encontro foi feito com a secretaria do gabinete. Vorcaro sugeriu dividir a reunião em duas etapas, pedindo 30 minutos a sós e mais 30 minutos acompanhado de advogados. "Não sei quanto tempo o ministro terá, mas, se for possível o roteiro abaixo, seria ótimo. Eu iria sozinho [ao gabinete] de 18h a 18h30, e de 18h30 até 19h entrariam duas pessoas para se juntarem à reunião", escreveu.

A servidora responsável informou que a agenda do ministro era limitada. "Fizemos um encaixe para o senhor. Ministro não tem todo esse tempo", explicou a secretária. Quando questionada por Vorcaro sobre a duração do atendimento, ela respondeu: "Uns 15".

Apesar do encontro, Gilmar Mendes votou contra os pleitos do setor sucroalcooleiro nas sessões da Segunda Turma. No caso da Destilaria Alcídia S/A, o ministro acompanhou o posicionamento da União, mas ficou vencido pela maioria dos demais magistrados.

O entendimento contrário aos precatórios das usinas foi mantido pelo ministro nos demais julgamentos do setor. Entre as ações analisadas estiveram processos das empresas Raízen e Jalles Machado.

Em nota oficial, o gabinete de Gilmar Mendes declarou que o ministro não tinha conhecimento de negociações entre Vorcaro e Chiquinho Feitosa, ressaltando que não responde por relações de ex-parentes. O comunicado destacou que a audiência ocorreu em ambiente institucional e seguiu as prerrogativas legais da advocacia.

A nota do gabinete reforçou ainda que o magistrado votou contra os interesses do Banco Master e a favor da União em todas as ações do setor sucroalcooleiro apreciadas pelo colegiado.

Veja a íntegra da nota emitida pelo gabinete do ministro Gilmar Mendes:

"Chiquinho Feitosa é ex-cunhado do Ministro. O Ministro não teve conhecimento de qualquer tratativa entre ele e Daniel Vorcaro, não foi por ele procurado sobre os assuntos mencionados e não responde por relações privadas ou profissionais de ex-parente.

A audiência ocorreu em 11 de abril de 2024, às 18h, no gabinete do Ministro, no Supremo Tribunal Federal, e contou com a presença dos advogados do Banco Master. Foi realizada na sede do Tribunal, em ambiente institucional, e não em espaço privado. O recebimento de advogados em audiência é prerrogativa assegurada pelo art. 7º, VIII, da Lei 8.906/1994. Na ocasião, tratou-se de causa do setor sucroalcooleiro — ARE 1327995, de relatoria do Ministro Edson Fachin, em que figura como recorrida a Destilaria Alcídia S/A.

Nesse processo, julgado pela Segunda Turma em 3 de junho de 2025, o Ministro Gilmar Mendes votou contra os interesses do Banco Master. O voto foi contra o pagamento do precatório, no sentido defendido pela União. Ficou vencido, acompanhado pelo Ministro André Mendonça. Prevaleceu a posição dos Ministros Edson Fachin, Nunes Marques e Dias Toffoli, favorável à empresa.

O voto foi o mesmo em todos os demais casos do setor sucroalcooleiro julgados na Segunda Turma. No ARE 1312127 (Raízen), relatado pelo Ministro, ele votou contra o pagamento do precatório, e a União saiu vitoriosa em 16 de setembro de 2024, vencidos os Ministros Edson Fachin e Nunes Marques. No ARE 1392660 (Jalles Machado), votou duas vezes contra o pagamento à usina — em 6 de agosto de 2024 e em 19 de agosto de 2025 —, ficando vencido nas duas ocasiões, acompanhado pelo Ministro André Mendonça. No ARE 1500251 (Raízen), pediu destaque em 15 de agosto de 2025 e interrompeu julgamento que se encaminhava em favor da usina. Na STP 976-ED, votou em todas as sessões contra a liberação do precatório de mais de R$ 5 bilhões.

Em nenhum desses processos o Ministro votou em sentido favorável aos interesses apontados pela reportagem — inclusive após a audiência mencionada."




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