“A Tartaruga ninja”: Quando um apelido vira ataque que pode reproduzir capacitismo e misoginia?
A declaração também chama atenção porque Kil Freitas já foi alvo de ataques e apelidos relacionados às suas próprias características físicas.
Kil Freitas, ex-prefeito de União dos Palmares. Foto: Reprodução O ex-prefeito de União dos Palmares, Kil Freitas, usou suas redes sociais para fazer críticas ao atual prefeito, Júnior Menezes, seu ex-aliado.
O que chamou a atenção de muitos e, não poderia passar despercebido, foi o uso da expressão “a tartaruga ninja” como apelido pejorativo contra uma pessoa, que nesse caso, com uso do artigo definido “a”, conclui-se que a referência de Kil Freitas é uma mulher. O vídeo logo se espalhou nas redes e fomentou uma forte discussão no meio político de União dos Palmares, no interior de Alagoas
Embora “tartaruga ninja” seja, originalmente, uma referência a personagens de histórias em quadrinhos e desenhos animados, o contexto em que uma expressão é empregada pode mudar completamente seu significado. Quando utilizada para ridicularizar alguém por sua aparência ou por uma característica física, deixa de ser apenas uma brincadeira ou uma provocação política e pode funcionar como mecanismo de humilhação e estigmatização.
A título de comparação, outros exemplos de descaracterização de um personagem para uso pejorativo, seria chamar um gordo de Seu Barriga ou Nhonho (Chaves, 1973), ou Tonho da Lua (Mulheres de Areia, 1993) para se referir a uma pessoa com deficiência mental.
É nesse ponto que aparece o conceito de capacitismo: a discriminação, o preconceito ou a desvalorização de uma pessoa em razão de características corporais, deficiências ou condições físicas. O problema não está necessariamente na expressão isolada, mas na utilização de uma característica do corpo como instrumento para diminuir, constranger ou desqualificar alguém.
Quando o alvo é uma mulher , “A tartaruga ninja” e a referência à aparência física é utilizada para atacá-la no debate político, também pode haver uma dimensão de misoginia, especialmente quando o corpo ou a aparência feminina são transformados em argumento para deslegitimar sua participação pública. Mulheres na política são historicamente submetidas a julgamentos sobre aparência, corpo e comportamento que não necessariamente fazem parte da discussão sobre suas ideias ou atuação. Não se sabe quem seria a personagem em questão, mas não há dúvidas que soa como uma agressão.
Por isso, a análise do episódio precisa considerar o contexto: o termo foi empregado como crítica política ou como uma forma de ridicularização baseada em característica física? É essa diferença que determina o peso social e ético da expressão.
A declaração também chama atenção porque Kil Freitas já foi alvo de ataques e apelidos relacionados às suas próprias características físicas. Ele utiliza uma prótese entre o quadril e fêmur, após ser vítima de um acidente automobilístico. Nesse contexto, a utilização de uma característica corporal para atingir outra pessoa pode ser vista como uma reprodução do mesmo mecanismo de preconceito que ele próprio já enfrentou.
O episódio, portanto, ultrapassa a simples discussão sobre um apelido. Ele coloca em debate os limites da crítica política e até que ponto características físicas devem ser utilizadas como instrumento de ataque pessoal. Em uma disputa política cada vez mais marcada pelas redes sociais, a diferença entre crítica, ironia e discriminação passa também pela forma como o adversário é tratado.
Procure apoio!
No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (Ligue 188) oferece apoio gratuito, 24h por dia, a pessoas que foram vítimas de discriminação que tenha gerado forte abalo emocional imediato e crise psicológica.
No seu município, você também pode procurar o CREAS - Centro de Referência Especializado de Assistência Social para obter apoio profissional presencialmente.


